quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Você caminha de um lado para o outro, da poltrona em frente ao televisor para a cama, da cama para o banheiro.
Ele não para de te observar, gordo e preguiçoso, com movimentos lentos e rígidos, sempre apoiado em seu ombro fazendo aquela estranha força gravitacional amplificada, que te obriga a soltar os braços enquanto segura um livro ou a deixar o controle remoto cair sobre o colo.
O tédio, pesado tédio, resolve te visitar nas tardes de Janeiro para te condenar a um sentimento ainda inexplicável, sentimento de vazio que não quer ser preenchido.Se alimenta de tuas vontades e te dá em troca um leve desconforto, um bocejar que fica parado na boca, e que mesmo com muita insistência, não sai por completo, como se tivesse deixado sua marca registrada em você. Podendo assim contabilizar quantos já dominou, e aquela massa apoiada no sofá ,preguiçosamente comemora o triunfo de mais uma tarde ter lhe roubado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Aquele par de tênis pendurado nos fios elétricos pelo cadarço, na rua de baixo, me fazem refletir seriamente nos meus dias de folga voluntária; Será que seria de um garoto, filho de um professor, que seus colegas o perseguiam pelo corredores com o único intuito de aborrecê-lo, e em um dia no fim da tarde após a escola o encontraram na rua, arrancaram os tênis, um após o outro, dos pés agitados do pobre garoto, fizeram um laço e atiraram pro alto, rindo dos pés nus que agora se erguiam tristes e expostos?
Seria de um rapaz que quando notou que não teria como escapar do ladrão, usou de sua agilidade para se livrar do calçado jogando-o para o alto, com o pensamento de que no dia seguinte voltaria para buscar, mas com um som seco desabou no chão após ser atingido por um pedaço de calçada, e nunca mais pode voltar aquela rua para buscar seu tênis?
Na pior das hipóteses, seria apenas uma espécie de farol guia para os viciados em noites estranhas de tremedeira, sinalizando que ali existe um ponto de venda de sua droga favorita?
A versão que mais me agrada seria a que um menino ou menina é dominado pela euforia do pleno compreendimento da felicidade, resolve fazer seu próprio caminho de excêntrico desapego, e começa por se livrar dos tênis, se tornando assim uma das poucas pessoas na terra, podendo se dizer também pelo sentido literal, com os pés no chão.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Odara

Fito um ponto cego no meio de meu quarto, vasculhando minhas lembranças, tentativa, que provoca em meu peito uma dor atroz, de materializar seu rosto em frente ao meu; O tempo levou o que eu sabia de voce, levou as pequenas caracteristicas fisicas que tinha decorado para em dias nublados fazer o que agora eu tento. Me deixou a mesma incerteza amarga de sempre, sou obrigado a engolir esse amargo, como mãe que dá remedio ao filho febril.
E é essa querida febre que me mostra em minhas alucinações noturnas, que minha existencia nunca passou de água em teu corpo, deslizou por ele, chegou aos pés, secou.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O que transcende o estado de solidão é se deparar com a frustração de não ter ninguem para mentalizar enquanto toca uma bela melodia em seu instrumento de cordas, para escrever poesias escondidas e rasgar ao termino da estrofe, é gastar o dia ao lado de muitos e na hora do sono, seu ultimo segundo consciente, nenhum rosto lhe vem em mente, e dorme um sono triste, um sono só.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fui com sede ao pote, corri, transpirava e bufava, com tanta sede, quando cheguei, amarronzada e seca terra, terra e tristeza. A mal-julgada sede não foi involuntária, meu corpo não estava desidratado, seguindo meu instinto humano, limitado e prepotente, criei a sede quando vi que não havia mais ninguém por perto para chegar tão rápido quanto eu ao pote. A culpa não é do pobre pote, era convidativo, mas não chegou a me convidar. Muito menos da sede, estava adormecida quando fiz questão de acordá-la. Aceito e assumo que a culpa foi minha por me agarrar a oportunidade de matar a sede que não tinha. Agora, a sede acordada resmungava por água, já eu, com os dedos sujos de terra, gesticulava e gaguejava tentando dar uma boa desculpa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Deitada, no leito da morte, com dúzias de tubos saindo de seu corpo, em uma posição onde avistava a parede branca e a elevação que seus pés causavam nas cobertas, se arrependeu. Da roupa roxa que não usou, do filme que não pode ver, da dança que não pode dar o luxo de ser convidada a dançar, da musica que tapou os ouvidos para não escutar, do homem que não teve o prazer de deitar junto, do anel que não pôs no anelar, do hímen intacto e adormecido, de nunca ter sentido a sensação de ver um crânio se projetando para fora de seu corpo enquanto a dor de defecar uma caminhonete lhe percorria o corpo, do habito que usou por mais de 50 anos, pelo punhal que não passeou dentro do capelão bulinador de crianças, e finalmente, de ter afirmado a vida inteira amar um homem a quem nunca se quer recebeu um "bom dia" em troca.
De súbito, como se sua mente espirrasse um pensamento, percebe que no ultimo ponto, conseguiu arruinar com seu passaporte. Notando que havia traído o que por toda vida tinha acreditado, perdendo assim, a possível paz eterna, se arrependeu novamente, de ter desejado um dia aquele maldito sapato roxo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Roseli

Se solução na pratica dos problemas não há, e a cara amarrada e distante insisti em estragar seus jantares, isolamento é a saída. Mas enquanto me encontrar isolado, me divertindo com a minha coleção de arrependimentos, não venha me pedir para que mude, a mascara do bem-estar alheio já não cabe em meu rosto.
Avise a familia que escolhi que cansei da estagnação que me propunham diariamente quando reclamavam de minhas grosserias, se não entenderam o manual de "como nao se queimar", o menos culpado é o mais julgado.
Mas se encontrar alguem que não seja inflamável pela má educação, mande entrar.