Não me recordo como consegui, mas foi a descoberta do nome e da profissão de sua mãe o grande motivo. Não era pessoal, quando se tem onze anos e uma cabeça vazia, nada é pessoal. Dalgisa era cozinheira de creche, foi isso que comuniquei toda a escola com tom de deboche, uma profissão honesta como qualquer outra, mas que se torna uma arma nas mãos de um moleque. Ele se enfureceu, claro, qualquer um na situação dele teria feito o mesmo comigo. Agarrou-me pelo pescoço no meio do recreio, momento destinado para o almoço, mas que a correria sempre toma lugar, e bateu o canto de minha testa contra a parede. Eu, criança branca com traços delicados, logo tive o rosto deformado pelo enorme galo que saltou para fora. Na sala da diretora, de moletom branco, bijuterias no pescoço e sorriso gengival, nenhum sorriso foi dado, enquanto ele soluçava e eu mantinha-me em silencio, ela escrevia um bilhete para cada responsável, bilhete que teve seu fim nas mãos de meu irmão. Três anos mais velho e uma inconsequência nos atos o levou até os portões da escola, surrou o garoto de uma maneira que apenas nos filmes europeus lado B que tentam mostrar a degradação da juventude, pode se observar. Ao fim do espetáculo, algumas poucas palavras foram ditas no ouvido de meu colega, que com sangue no colarinho veio me pedir desculpas e dizer que agora éramos amigos, humilhação.
Na fila da lotérica o encontro, esta na minha frente e não sabe que estou novamente em posição privilegiada, eu o vejo e não é vice-versa. Usa meias cinzas, tem voz comicamente aguda e pela desproporcionalidade de seus músculos, usou uma generosa quantidade de esteroides anabolizantes durante esses anos. Ali estávamos, duas criaturas que tinham a definição das palavras "desculpa" e "amizade" totalmente distorcidas pelo acaso. Fez sua "fézinha" em três tipos de jogos diferentes e se foi, fiz questão de virar-me no momento em que cruzou comigo. Nunca mais o vi, o arrependimento me força a colocá-lo as vezes em minhas orações, hoje em dia trabalho como cozinheiro.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Menina
Tu que tens o conhecimento de que em tua ausência os demonios saem para caçar, e mesmo assim te ausentas em parcelas de tempo para pequenos caprichos, estremeces pois não sabes ao certo se será em tuas costas que cairás a maior parcela de culpa. Afinal, está na essência dos vilões a malevolencia, e tu, como héroi desta história, não deverias te ausentar das responsabilidades que previamente adquiriste. Confesses, cansou e não queres mais pomposo titulo e queres trocar os scripts para poder ter um pouco de sossego.
terça-feira, 9 de março de 2010
As 9:07 da manha seu celular vibrou para lhe avisar que havia recebido uma mensagem instantânea. Acordou e estremeceu, fazia dias que não recebia uma mensagem ou um telefonema, no jantar do dia anterior tinha refletido sobre isso e após uma pesquisa em seu computador, chegou a conclusão de que se tivesse escorregado no banheiro e quebrado o pescoço no primeiro dia dessa temporada de 11 dias de deserto social, seu corpo já estaria em decomposição.
Apanhou o celular e centenas de rostos vieram em sua mente, muitos ele sabia que não tinham seu numero de celular, ao aperta o botão "abrir mensagem", em letras garrafais ele via que sua operadora acabará de lhe dar "R$ 10 em bônus, para poder falar com todos os seus amigos". Ficou parado por alguns segundos, leu novamente a mensagem. Era sábado, ele poderia dormir até a hora que desejasse, mas não conseguiu pegar no sono novamente. Deitado de lado em sua cama, com as mãos sob a cabeça numa posição infantil, começou a desconfiar de que as operadoras de celular olhavam no histórico de seus clientes, e davam bônus para os que menos ligavam e menos recebiam ligações, fazendo assim, caridade para quem não pode usufruir, pensou que a metáfora "dar pérolas aos porcos" não se encaixava nesta situação, o problema não era estar a altura das pérolas, mas que ele não tinha nenhuma utilidade para elas, como um alérgico a pérolas.Não conseguiu levantar da cama antes do sol passar pelo ponto mais alto do céu: "Será que as operadoras dão bônus pois as pessoas estão ligando e mandando menos mensagens a cada dia, e agora que todos terão bônus, me ligarão mais? Ou será que não sou procurado pois até com uma simples distribuição aleatória de bônus para clientes, eu faço um grande caso?"
Apanhou o celular e centenas de rostos vieram em sua mente, muitos ele sabia que não tinham seu numero de celular, ao aperta o botão "abrir mensagem", em letras garrafais ele via que sua operadora acabará de lhe dar "R$ 10 em bônus, para poder falar com todos os seus amigos". Ficou parado por alguns segundos, leu novamente a mensagem. Era sábado, ele poderia dormir até a hora que desejasse, mas não conseguiu pegar no sono novamente. Deitado de lado em sua cama, com as mãos sob a cabeça numa posição infantil, começou a desconfiar de que as operadoras de celular olhavam no histórico de seus clientes, e davam bônus para os que menos ligavam e menos recebiam ligações, fazendo assim, caridade para quem não pode usufruir, pensou que a metáfora "dar pérolas aos porcos" não se encaixava nesta situação, o problema não era estar a altura das pérolas, mas que ele não tinha nenhuma utilidade para elas, como um alérgico a pérolas.Não conseguiu levantar da cama antes do sol passar pelo ponto mais alto do céu: "Será que as operadoras dão bônus pois as pessoas estão ligando e mandando menos mensagens a cada dia, e agora que todos terão bônus, me ligarão mais? Ou será que não sou procurado pois até com uma simples distribuição aleatória de bônus para clientes, eu faço um grande caso?"
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Você caminha de um lado para o outro, da poltrona em frente ao televisor para a cama, da cama para o banheiro.
Ele não para de te observar, gordo e preguiçoso, com movimentos lentos e rígidos, sempre apoiado em seu ombro fazendo aquela estranha força gravitacional amplificada, que te obriga a soltar os braços enquanto segura um livro ou a deixar o controle remoto cair sobre o colo.
O tédio, pesado tédio, resolve te visitar nas tardes de Janeiro para te condenar a um sentimento ainda inexplicável, sentimento de vazio que não quer ser preenchido.Se alimenta de tuas vontades e te dá em troca um leve desconforto, um bocejar que fica parado na boca, e que mesmo com muita insistência, não sai por completo, como se tivesse deixado sua marca registrada em você. Podendo assim contabilizar quantos já dominou, e aquela massa apoiada no sofá ,preguiçosamente comemora o triunfo de mais uma tarde ter lhe roubado.
Ele não para de te observar, gordo e preguiçoso, com movimentos lentos e rígidos, sempre apoiado em seu ombro fazendo aquela estranha força gravitacional amplificada, que te obriga a soltar os braços enquanto segura um livro ou a deixar o controle remoto cair sobre o colo.
O tédio, pesado tédio, resolve te visitar nas tardes de Janeiro para te condenar a um sentimento ainda inexplicável, sentimento de vazio que não quer ser preenchido.Se alimenta de tuas vontades e te dá em troca um leve desconforto, um bocejar que fica parado na boca, e que mesmo com muita insistência, não sai por completo, como se tivesse deixado sua marca registrada em você. Podendo assim contabilizar quantos já dominou, e aquela massa apoiada no sofá ,preguiçosamente comemora o triunfo de mais uma tarde ter lhe roubado.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Aquele par de tênis pendurado nos fios elétricos pelo cadarço, na rua de baixo, me fazem refletir seriamente nos meus dias de folga voluntária; Será que seria de um garoto, filho de um professor, que seus colegas o perseguiam pelo corredores com o único intuito de aborrecê-lo, e em um dia no fim da tarde após a escola o encontraram na rua, arrancaram os tênis, um após o outro, dos pés agitados do pobre garoto, fizeram um laço e atiraram pro alto, rindo dos pés nus que agora se erguiam tristes e expostos?
Seria de um rapaz que quando notou que não teria como escapar do ladrão, usou de sua agilidade para se livrar do calçado jogando-o para o alto, com o pensamento de que no dia seguinte voltaria para buscar, mas com um som seco desabou no chão após ser atingido por um pedaço de calçada, e nunca mais pode voltar aquela rua para buscar seu tênis?
Na pior das hipóteses, seria apenas uma espécie de farol guia para os viciados em noites estranhas de tremedeira, sinalizando que ali existe um ponto de venda de sua droga favorita?
A versão que mais me agrada seria a que um menino ou menina é dominado pela euforia do pleno compreendimento da felicidade, resolve fazer seu próprio caminho de excêntrico desapego, e começa por se livrar dos tênis, se tornando assim uma das poucas pessoas na terra, podendo se dizer também pelo sentido literal, com os pés no chão.
Seria de um rapaz que quando notou que não teria como escapar do ladrão, usou de sua agilidade para se livrar do calçado jogando-o para o alto, com o pensamento de que no dia seguinte voltaria para buscar, mas com um som seco desabou no chão após ser atingido por um pedaço de calçada, e nunca mais pode voltar aquela rua para buscar seu tênis?
Na pior das hipóteses, seria apenas uma espécie de farol guia para os viciados em noites estranhas de tremedeira, sinalizando que ali existe um ponto de venda de sua droga favorita?
A versão que mais me agrada seria a que um menino ou menina é dominado pela euforia do pleno compreendimento da felicidade, resolve fazer seu próprio caminho de excêntrico desapego, e começa por se livrar dos tênis, se tornando assim uma das poucas pessoas na terra, podendo se dizer também pelo sentido literal, com os pés no chão.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Odara
Fito um ponto cego no meio de meu quarto, vasculhando minhas lembranças, tentativa, que provoca em meu peito uma dor atroz, de materializar seu rosto em frente ao meu; O tempo levou o que eu sabia de voce, levou as pequenas caracteristicas fisicas que tinha decorado para em dias nublados fazer o que agora eu tento. Me deixou a mesma incerteza amarga de sempre, sou obrigado a engolir esse amargo, como mãe que dá remedio ao filho febril.
E é essa querida febre que me mostra em minhas alucinações noturnas, que minha existencia nunca passou de água em teu corpo, deslizou por ele, chegou aos pés, secou.
E é essa querida febre que me mostra em minhas alucinações noturnas, que minha existencia nunca passou de água em teu corpo, deslizou por ele, chegou aos pés, secou.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
O que transcende o estado de solidão é se deparar com a frustração de não ter ninguem para mentalizar enquanto toca uma bela melodia em seu instrumento de cordas, para escrever poesias escondidas e rasgar ao termino da estrofe, é gastar o dia ao lado de muitos e na hora do sono, seu ultimo segundo consciente, nenhum rosto lhe vem em mente, e dorme um sono triste, um sono só.
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