quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Paula


Exibia de portas abertas sua casa. Mostrando cada belo detalhe e decoração, misturando o moderno com o antigo. Contrastando o verde e o mogno, o azul e o carvalho. Tudo em tal perfeita harmonia e preenchimento que nem parecia sobrar espaço para a desordem e os sentimentos genuínos. Se dizia uma "fortaleza esculpida em bronze" e que nunca sentira tais emoções.
Só eu que via o jardim de sua cabeça. Pegava tudo quanto era sentimento sólido e enterrava, jogando terra, ironia, musica europeia e livros feministas por cima. Ficava apenas com seu sorriso vazio e seu estado perpétuo de indiferença e tranquilidade forçada.
Uma leve chuva era o suficiente para germinar, e não tardava para nascer da terra úmida em lágrimas, belas e teimosas plantas. Com a cara coberta de vergonha e terra, ela arrancava pela raiz e cuspia para longe, sem nem se preocupar se a semente que germinara era de amor ou de ódio.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Maria Elena

Não, não é a vontade do exílio, de estar completamente só. Sinto agora, a vontade de estar "só" de você. Não digo que a culpa seja sua, poucos conseguem reciclar o olhar e você não nasceu com esse dom. Você continua ai, me vendo com os antigos binóculos e me tratando daquela velha maneira. Mas eu sou outro e isso já tomou consciência. Você me lembra diariamente o que eu era e isso é o estopim para pequenas contradições mentais. Preciso de um lugar onde eu comece do zero, sendo o que sou agora, sem que ninguém me lembre que acabei de passar por uma metamorfose. Imagine se um pássaro seria capaz de voar se a todo tempo o confundissem e achassem que ele ainda esta dentro do ovo?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Edson

Eu tinha três anos de idade, meu pai me pegou no colo e me levou até o quintal de casa para me mostrar a lua cheia, enquanto ele apontava para o céu com um sorriso no seu rosto barbudo, eu afundava. A curiosidade diluída em melancolia me fez perguntar: - Então, quando ela é vazia?

Por vezes, em noites de qualquer lua, o meu "eu" de três anos vem me visitar. Volta cheio de delicadas perguntas. Questiona o porquê que tudo precisa ter cheios e vazios, porquê as coisas não podem ser sempre plenas e sólidas. Ao invés da resposta, lhe faço a promessa que algum dia eu explico.
Ele resmunga e dorme seu sono agitado em meu peito, insatisfeito pela ausência da resposta. Dorme o meu sono e em troca me dá os suspiros da inquietude de não saber o por que todas as vezes que vou dizer da ambiguidade da lua, digo da dos homens. E cumpro com minha palavra dizendo a resposta baixinho, para que ele não ouça; - Nem todos os homens conservam a candidez da infância, a maioria precisa que as vezes a lua suma, para que ela exista.

sábado, 6 de novembro de 2010

Em Abril um heterônimo veio até mim e disse:

"Sou rei de coisas pequenas, de mundos muito menores que eu. De pessoas ásperas que não podem me criticar. Uso palavras difíceis se essas mesmas tentam me questionar, fazendo assim com que se calem de vergonha. Medo tenho eu, de enfrentar quem esta a minha altura ou num degrau mais alto. Vai que a falta de compaixão deles pelos menores me machuque. Se eles usarem de palavras que não sei, quando eu audaciosamente questionar alguma coisa, ficarei deprimido, me calarei de vergonha perante a eles, esses monstros. Então continuo aqui onde governo, ninguém nunca vai me substituir mesmo. Todos que crescem, aqui não continuam."

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oliveira

"Como ao almoçar, e a avó preparou uma sobremesa e não te avisou.
Você, minha sobremesa. Quando achava que já tinha provado de tudo e que não cabia mais nada dentro de mim, você me aparece com tuas formulas e historias de massacre. Encolho a barriga, pressiono o coração, perco o sono, e você dorme, contente por ter encontrado alguém para se apoiar."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Chegar a fatigante conclusão de que a certeza de estar submerso em merda, é melhor do que estar parcialmente. Pois o pior lugar para se encontrar é o meio do poço, onde flutuas sem poder respirar e sem saber até onde a profundidade daquilo pode te levar. Afinal, a paz só é encontrada, ou quando teu corpo se livra da água e encontra o ar para respirar e o inabalável chão para se erguer, ou quando teus pés tocam o severo fundo do poço e dali, sabes que é o melhor lugar para tomar impulso.
Chegar a essa conclusão é aprender a nadar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Não insista no lamento, o "SE" no passado não existe neste plano, proferir a triste sequencia de palavras "poderia ter sido diferente" só aumenta o peso do teu fardo e piora o resto de tua eternidade. Condenado assim, a passar as proximas tardes pensando como tudo estaria diferente, qual cor estaria teu quarto, se tua pressão estaria tão alta, se a vontade de desaguar no mundo seria tão escassa.